O dia de abandono se transformando em um imenso caranguejo vermelho… O mundo, a água e a volúpia de viver e se abandonar sob o espelho da chuva e da neblina. Gostaria de vivenciar tal fantasia vendo o céu de papel nas tenazes do crustáceo? Uma possibilidade de criar reconstruindo com os olhos e com a cabeça o meu mundo. Mas o fotógrafo é diferente. Ele está passeando com um olho só. Sempre. Ao registrar as imagens roubadas a beira do espelho d´ água, o fotógrafo Rogério Nagaoka me oferece a possibilidade de ver o espírito voraz desconhecido da metrópole seqüestrando o entendimento da realidade, que necessariamente, após um dia de chuva, após uma tempestade, mancha a superfície dos castelos e das memórias construídas no altar do adulto em ruínas. Mas devo aqui propor menos. Não é nada fácil participar do mundo úmido e flanar tal qual um andarilho entre as coisas que possuem raiz. O fotógrafo Rogério Nagaoka mostra nesta coletânea de imagens um mergulho direto nos olhos da cidade de São Paulo, olhos como os de uma Tarântula: verdadeiros espelhos sombrios a espreita para a captura do sol nos quatro pontos cardeais de uma geografia construída e parcialmente inutilizada pelo abandono. Os seus rios estão mortos sob camadas de concreto. Sacadas de edifícios, parques, praças e outros lugares povoados e animados pelos pássaros estão encardidos e cheias de musgo. São anêmonas urbanas, corais ao ar livre que seguem as trilhas dos trens, onde a corrosão das chuvas ácidas ardem na massa operária em direção ao sul, indo para a Serra do Mar, para as garoas de chumbo e neblinas intermitentes que um dia, castigaram os bandeirantes, os jesuítas e os índios. São ciclos de nossa própria história sob as lentes do caolho. Elevações. A serra abraça a região metropolitana seguindo para leste, depois para o oeste, não importa, mas abraçando e estabelecendo um limite estranho para a experiência do homem que insiste em se isolar do mundo social para entrar no “seu” espelho particular, bem longe do centro, durante as estadias torturantemente ricas de sentido suicida; dando as costas para quem com suas lentes possa disparar a “arma da paz” e revelar no coração digital, a solidão dos objetos e dos animais como um caçador visual. Uma espécie de olheiro em busca de respirações perdidas? Um anatomista da paisagem? Assim é o trabalho de um caçador de “borboletas”. Observando as fotografias do Rogério Nagaoka, posso lembrar que estou nos lugares úmidos do município de São Paulo, uma rosa dos ventos, um vapor convocando o errante progresso das estruturas banhadas pela vida, pelos seres que caem e se erguem na alegria e na tristeza. Que pousam, sentam e esperam pela passagem do tempo ou sobem escadas em direção a aberturas de luz principalmente nas horas em que as sombras devoram os ponteiros de um relógio abalado pelos passos. Essas sombras cobrem a música dos mecanismos da juventude, das coisas bonitas, das coisas que se movem, quando dançam como noivas no baile dos séculos de amor. Um casamento com as estruturas e vetores embaçados pela neblina da madrugada: uma carreata que acende velas nas calçadas para demarcar a posse por fidelidade ao registro, ao disparo da câmera fotográfica. Posso observar e ouvir a cítara deste trabalho como o som dos órgãos da cidade, nos limites das sensações úmidas calculadas no frio da noite e também, no “gelo” do dia, uma espécie de pele que, reproduzida em papel, tornam-se os pontos vitais da geografia emocional do planalto. Uma identidade fragmentada do paulistano. Toda manhã, toda tarde é a mesma trepidação. Esta busca, entre tantas possibilidades oferecidas pela fotografia digital requer alguma disciplina, ao menos para poder ouvir o som nítido da neurose emitida neste espaço reservado para as emoções duras, acinzentadas da vida e da morte sobre a qual, as chuvas e o fluxo dos rios poluídos e aterrados não encontram forma de escape. Do barulho do mar e das represas ao canto inaudível do casco de um barco de alumínio em direção ao litoral, tudo é monitorado pelo ouvido dos morcegos no consórcio com a vida. Poças estão reservadas as águas que descem dos céus ou que, em circunstâncias raras, brotam da terra, minam como possibilidades de entender o afloramento das vidas em trânsito na liquidez do percurso, nos desejos de escapar ao abandono, a mendicância, aos nichos restritos as pétalas da violência que, por registros fotográficos, testemunham lances partilhados no hálito das pedras. O ser humano não pode caminhar sobre águas profundas. Somente em poças. Ironicamente ele possui a emoção intensa de sonhar que está caminhando sem afundar, pisando em poças d´água. Assim, sob muitos aspectos, o tormento de um homem pelos desejos da vida pode encontrar-se ao lado de um cão, em pequenas alegrias, em breves fantasias e tristezas, observando a paisagem quando está sozinho, agarrado ao mastro do passado que mina, durante a tormenta como a água furtiva atingindo por veios subterrâneos, a superfície. Tenta descobrir, isolando-se dentro de si, os mistérios e calabouços de destinos cruzados com violência nas idades primordiais de mutação como a infância, a juventude, maturidade e a velhice. O ser humano é um construtor de pontes e outras palafitas para se encontrar sobre a água, sobre os rios, o mar, a consciência do mundo e do tempo. Estão reunidas aqui, algumas páginas pinçadas na comunhão contemporânea com a água, com as margens, com pontes que estão no centro de atividades que se comunicam pela relação estreita com o passado e o presente. São Paulo é o passado transformado em cinzas líquidas, através das chuvas aciduladas; registradas em preto e branco. O colorido pastel de outras transborda certa apendicite para o que restou de um rio, para o que restou das esperanças de um lavrador num córrego, certo cheiro, um asco irresistível de possibilidades sob a posse de um grupo de capivaras as margens do esgoto ou de um homem longe de seu estado normal, sozinho, maltrapilho em uma galeria urinando nas escadas que servem de acesso a uma praça, criando poças amarelas neste nicho, demarcando seu território. Prisioneiro da imensidão, este homem tem o prazer de urinar como um cavalo. Vemos em uma das fotos um cão tamborilando as patas alegremente pela água espalhando sua identidade para o cosmo. Parece um lobo desgarrado de sua matilha, arfando, feliz por conta do flanar distante de sua região. Fotografando este cão, Rogério Nagaoka faz um retrato do espírito viajante, andarilho, um quadro além dos limites impostos “pela autoria” – talvez um bem – podendo com isso, reativar os ponteiros do mundo cheio de espelhos; em horas e horas a deriva sobre a água com a língua de fora. Reparem como o cachorro participa das alegrias sujas da cidade na água empoçada, na água as margens de uma represa que destilou as faces do temporal. As emoções contidas no coração pela liberdade vergam o rabo do animal para cima, fazendo sem querer o desenho estranho da concha fóssil de um náutilo. Observando melhor estas fotografias, raramente as pessoas aqui retratadas se divertem tanto como este cachorro, molhando os pés descalços na água, partilhando da sujeira e dos indícios de outras manifestações menores do reino animal, como a passagem de uma família de ratos serpenteando a lama.
Pergunto se estes trabalhos podem incluir como ingredientes, um tempo jornalístico?
A velocidade, as “monções” são labirintos entre outros desconfortos sociais da região sudeste (aqui, o caipira do planalto está situado a menos de 80 km do mar). Cambaleante, viajante entre estruturas que envelhecem, desmoronam e descascam, pelo uso e pelo abandono calculado, o homem freqüentemente nas fotografias de Rogério Nagaoka tenta responder a esta necessidade de se deslocar para o oceano ou para a beira de represas e rios: sentar, voltar para o “interior”, para dentro de caravanas absolutamente pessoais que se perdem e que se encontram em uma dupla relação de amor e de ódio pela cidade de São Paulo. Este espelhamento da realidade confere ao instante, ao disparo da câmera fotográfica certa alegoria em uma rosa dos ventos longe de cessar. É o tempo, sempre o tempo virando de repente a sua ampulheta, renascendo na variação da luz a sua imortalidade no coração dos homens.

1. No centro de São Paulo está o marco zero na praça da Sé sob uma revoada de pombos: fotografias disparadas pelo armeiro buscando calibrar a luz na prata.
2. Em Paranapiacaba (lugar de onde se avista o mar) sob a tutela de uma engenharia fabulosa, mas corrompida pelo desuso, a cidade fantasma aparece e desaparece pelo prazer da névoa. Esta neblina brasileira culpa, por umidade e densidade, a usura de um espaço sagrado antes ocupado pelos índios e pelos espíritos da floresta atlântica, rasgada pelas ferrovias, conferindo aos trabalhos típicos de um operário visual certa descoberta no antigo. E não é exagero pensar nas fotografias de paranapiacaba como registros aptos a estar lado a lado com as máquinas a vapor, confabulando porosidade e a permanência ante a luz do trabalho braçal extinto.

Quantos cemitérios foram destruídos no alto destas montanhas para a passagem turbulenta das cremalheiras? Quantos túmulos foram removidos e dinamitados pelos trabalhadores que abriram incisões e outras picadas na floresta? Quantas cachoeiras não sucumbiram aos esforços das picaretas e dos formões nas rochas, pelas quais minavam o “sangue” fresco da serra, talvez como um choro pela perda do seu depósito de ossos sem lápides de concreto, mas de raízes de árvores imensas escondidas nas alturas, no cimo nublado onde se encontram colunas de casas em ruínas. Nesta simbologia da perda e do ganho, o choro das cachoeiras, o frio das águas do interior das rochas no corpo da montanha significa, uma certa saudade do recuo geológico das águas do mar (eterna amante) contornando a serra com braços fluviais que se transformam em estuários, para atracar a balsa dos mortos. No mangue, uma comunhão com a vida, com detritos mastigados caminha e rasteja sobre a terra na casca do caranguejo… Nas fotografias de Paranapiacaba está o início experimental de um trabalho movido pela saudade capturada para compreender que, tão longe, na beira do abismo, pode estar a imagem do animado mundo comum, uma espécie de espírito bandeirante que alça para o céu, desce como a chuva, evapora, torna-se névoa para penetrar nas frestas; em aberturas onde estará o musgo, o caracol, um ninho de formigas ao lado do Louva Deus matando a sede com uma gota de água. Por que a fotografia tem como característica apresentar o passado – presente, ou seja, uma fusão entre a realidade e o microcosmo da evaporação, no contexto lúdico – real, transformando-se em permanências ferruginosas onde os seres passam, vivem em objetos; entre as pedras, entre os trilhos, sob as telhas enegrecidas das casas ou nas pálpebras dos pássaros recém nascidos. Sozinhos, eles esperam o momento exato para lançar-se ao ar tal qual as lentes do fotógrafo, que escolhe onde pousar o fenômeno da prata, da cor, onde, no infinito das formas, pode participar da tentativa de capturar uma respiração do mundo que, na verdade, são pequenos arquipélagos de gotas que explicam o seu itinerário, sombreando a graça.

Ulysses Bôscolo, verão de 4 de novembro de 2008.

Dedicado ao fotógrafo Rogério Nagaoka


diálogo e inter-ativos