Deuses, luzes e reflexos

Wenceslao Oliveira

As fotos de Henrique Parra nos levam do céu ao chão. A mirada nas nuvens traz à memória as imagens da manifestação da palavra de deus na iconografia cristã: uma luz por entre um céu nublado, uma esperança em meio à tormenta. De repente, desabamos. A queda da mirada, a inversão do ângulo. Não mais olhar para cima e encontrar por entre as nuvens alguma esperança que se eleva para além daquelas formas construídas pelos homens com argamassa, vidro e metal. No chão, as marcas da chuva que cai, que caiu. O chão molhado reflete melhor a luz, favorecendo a captura fotográfica. Não mais a luz divina, mas elétrica. Não mais a luz única, mas múltipla de postes e faróis: reflexos.

Após esta entrada pelo alto e por baixo, o fotógrafo nos dá a ver o que há entre estes extremos, no chão: os humanos e suas necessidades de água. Sede, limpeza. Básicas vontades negadas para muitos dos que aparecem nas imagens. Sem-água, com pouca água, buscadores de água. Acesso à água: distribuição, armazenamento, transporte. Um mundo onde perto e longe ainda se mantêm como distâncias e distinções. Água na torneira próxima se opondo à água buscada na mina, no lago, no córrego. Canos como recipientes públicos onde a água pode ser alcançada nos espaços privados. Panelas e baldes como recipientes privados onde se pode armazenar a água pública. Imagens que denunciam. Mostram a água em muitas de suas aparições. Imagens belas, mesmo quando mostram o rio morto, povoado pelas espumas.

Fotos nos mostram um píer a adentrar a água e a opacidade. A aproximação do fotógrafo permite ver o píer mais de perto. A aproximação do barco traz ao píer homens vindos da opacidade. O que parecia ser uma névoa no espaço é também uma névoa no tempo. Os homens que descem no píer vieram não só de outro lugar, mas de outra época: chapéus, roupas, gestos que aportaram ali vindos do passado localizado do outro lado da represa… ao sul. A passividade da água como sendo sinônimo da resignação daqueles que vivem do outro lado da lagoa, homens represados.

Em outras imagens é a transparência da água que nos é mostrada como sinônimo da vida, onde se mergulha e se goza dos prazeres de ter o corpo envolvido pelo movimento, pelo deslizar líquido do tempo que passa no barulho do correr dos rios e córregos. Às muitas margens das muitas águas, vemos vacas a pastar, ruas de terra batida, lixo, esgoto e varas de pescar que se esticam sobre as águas, onde as invisíveis linhas amarradas nos anzóis mergulham feito as longas pernas das garças. Mirando de muito perto, todas as águas são uma só água e nela vemos boiar pétalas de flores e infinitos dejetos multicores. Reinando sobre todas estas águas está um Netuno flutuante, bar e restaurante da cidade de São Paulo.


diálogo e inter-ativos